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TogglePara quem cria, doma ou simplesmente admira a raça Crioula no Sul do Brasil e em diversas outras regiões do país, o pasto verde e vigoroso é sinônimo de prosperidade. Entre as forrageiras mais populares, o Tifton 85 destaca-se pela alta produtividade, resistência a secas e excelente capacidade de lotação por hectare. No entanto, por trás da aparente perfeição agronômica dessa gramínea, esconde-se um risco muitas vezes subestimado pelos criadores: a relação direta entre o manejo inadequado do Tifton 85 e quadros severos de cólica equina, que podem ser fatais para o seu plantel.
O Cavalo Crioulo, historicamente adaptado às pastagens rústicas, duras e fibrosas dos pampas, possui um sistema digestivo altamente especializado. Quando subitamente exposto a forrageiras de altíssimo teor de umidade, carboidratos não estruturais e talos lignificados, o equilíbrio do microbioma cecal e colônico pode entrar em colapso. Compreender essa dinâmica é o primeiro passo para blindar sua tropa contra perigos silenciosos que rondam o cocho e o potreiro.
A Anatomia do Risco: Por que o Tifton 85 exige atenção redobrada?
Desenvolvido para a pecuária de corte e leite, o Tifton 85 é uma gramínea de crescimento agressivo. Para o gado bovino, um animal ruminante com sistema digestivo adaptado a digestões complexas e demoradas, essa forragem é excelente. Contudo, o cavalo é um herbívoro monogástrico de fermentação posterior — o ceco e o cólon funcionam como grandes câmaras de fermentação localizadas no final do trato digestivo.
O perigo do Tifton 85 reside em duas características principais:
- Relação folha-talo desequilibrada: Quando o capim passa do ponto ideal de pastejo, os caules tornam-se extremamente fibrosos e lignificados. Essa fibra madura é de difícil digestão para os equinos, acumulando-se no trato digestivo e provocando a temida cólica por compactação.
- Teor de açúcares e água: Em momentos de rápido crescimento, especialmente após adubações nitrogenadas e chuvas, o capim acumula altos níveis de carboidratos solúveis. Isso causa alterações drásticas na microbiota intestinal, gerando acidose e cólicas gasosas.
O perfil do Cavalo Crioulo e a sensibilidade digestiva
O Cavalo Crioulo é conhecido pela rusticidade, sobriedade e resistência a intempéries. Paradoxalmente, essa mesma rusticidade faz com que muitos proprietários negligenciem sutis mudanças no manejo alimentar. O crioulo metaboliza muito bem alimentos grosseiros, mas sua flora intestinal é sensível a mudanças bruscas de dieta.
Muitos criadores transferem seus animais de campos nativos — ricos em gramíneas nativas de menor valor nutritivo, porém altamente seguras — direto para piquetes intensivos de Tifton 85 puro. Esse choque nutricional é um convite aberto para distúrbios gastrintestinais graves, colocando em risco a vida de animais de alto valor zootécnico e afetando diretamente a seleção da raça.
Estratégias de Manejo: Como salvar seu plantel hoje
Eliminar o Tifton 85 da propriedade não é necessário nem viabilizado economicamente para a maioria dos criadores. O segredo para proteger o Cavalo Crioulo reside no rigor técnico do manejo da pastagem e da suplementação. Pequenas correções na rotina diária evitam tragédias no haras.
1. Controle rigoroso da altura do pastejo
O Tifton 85 destinado a equinos nunca deve ser pastado quando estiver muito alto ou muito baixo. O ideal é mantê-lo em uma altura entre 15 e 25 centímetros. Evite deixar os cavalos em piquetes “raspados”, pois é justamente nessa fase que eles consomem os talos mais duros e secos da base, principais causadores de compactações intestinais.
2. Adaptação gradual e volumoso complementar
Se os animais vêm de sistema extensivo, a introdução ao Tifton deve ocorrer de forma gradativa, ao longo de 10 a 14 dias. Além disso, o fornecimento prévio de feno de boa qualidade (como o feno de Tifton colhido no ponto correto ou feno de Coast-cross) antes de soltar os animais no pasto verde ajuda a regular o trânsito intestinal e reduz a velocidade de consumo.
3. Monitoramento da sanidade e controle parasitário
O estresse digestivo causado por forragens inadequadas agrava-se exponencialmente quando o animal possui carga parasitária alta. Verminoses subclínicas alteram a absorção de nutrientes e debilitam a mucosa intestinal. Um programa rigoroso de vermifugação baseado em exames de OPG (Ovos por Grama de Fezes) é inegociável.
Conclusão
O Tifton 85 continuará sendo uma ferramenta agronômica valiosa na equinocultura moderna, oferecendo suporte nutricional e volumoso de qualidade quando manejado com critério científico. Contudo, tratar o cavalo crioulo como se fosse um boi é um erro histórico que custa caro — muitas vezes, a vida do melhor animal do plantel. Cabe ao criador consciente olhar além da beleza aparente do pasto verdejante e entender as reais necessidades fisiológicas do equino.
Investir em informação técnica, ajustar a altura de entrada e saída dos piquetes, fornecer volumoso de qualidade e respeitar a singularidade digestiva do Cavalo Crioulo são atitudes que transformam a lida diária. Afinal, prevenir a cólica letal não é apenas uma questão de medicina veterinária de emergência, mas o verdadeiro pilar de uma criação sustentável, ética e lucrativa.






