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ToggleNas amplas coxilhas de Bagé, coração pulsante da criação do Cavalo Crioulo no Rio Grande do Sul, a tradição sempre foi dita em voz alta e passos firmes. Por décadas, a lida bruta e a doma tradicional foram vistas como a única maneira de forjar animais rústicos, capazes de aguentar o rigor do trabalho de campo e as exigências funcionais do Freio de Ouro. No entanto, uma cabanha tradicional da região decidiu desafiar esse paradigma centenário ao trocar a força pela compreensão, gerando uma transformação profunda em seu plantel e em seus resultados zootécnicos.
O Contexto: A Tradição em Solo Bageense
A Cabanha Rincão da Coxilha, localizada nos arredores de Bagé, construiu sua reputação com base em animais de excelente morfologia e linhagem funcional consagrada. Com mais de trinta anos de seleção, o dia a dia na estância seguia à risca os costumes transmitidos de geração em geração: campo aberto, geada na madrugada e uma doma rápida, enérgica e focada na subjugação do animal.
Os potros entravam no redondel com força total e, em pouco tempo, estavam montados e trabalhando no gado. Para os olhos menos atentos, o método funcionava. Contudo, as marcas invisíveis desse processo cobravam um preço cada vez mais alto na rotina da propriedade.
O Problema: O Custo Invisível da Doma Tradicional
Apesar da robustez da raça Crioula, a administração da cabanha começou a notar um padrão preocupante ao longo das temporadas. Uma porcentagem expressiva dos potros recém-domados apresentava comportamentos defensivos, reações exageradas ao contato humano e problemas sérios de “boca dura” — animais que travavam na rédea ou fugiam da embocadura pelo excesso de pressão.
Além disso, o índice de lesões tanto nos animais quanto nos domadores gerava prejuízos operacionais e atrasos na preparação para as provas do ciclo da ABCCC. Cavalos com potencial genético de ponta acabavam desvalorizados em remates ou descartados para as pistas por apresentarem traumas psicológicos, medo excessivo do homem ou falta de confiança no trabalho com o gado.
A Solução: A Virada de Chave para a Doma Racional
Diante do impasse, os proprietários tomaram uma decisão audaciosa para o meio tradicionalista: contrataram uma consultoria especializada em etologia equina e doma racional para remodelar todo o manejo da cabanha. O primeiro grande desafio não foi lidar com os potros, mas desconstruir preconceitos e capacitar os próprios peões e domadores da casa.
Etapas da Transformação no Manejo:
- Imprinting e contato precoce: Dessensibilização dos potros desde o desmame, acostumando-os com o cabresto, escovação e toque sem qualquer uso de violência.
- Comunicação e linguagem corporal: Ensino de comandos por pressão e alívio no redondel, permitindo que o cavalo compreenda o que é pedido antes de exigir a execução.
- Aceitação gradual da tralha: Introdução do bocal, da sela e das rédeas sem sobressaltos, respeitando o tempo de maturação de cada indivíduo.
- Trabalho de campo progressivo: Saída para a lida nas coxilhas apenas quando a confiança entre ginete e animal estivesse plenamente consolidada.
Os Resultados: Cavalos Mais Mansos, Eficientes e Valorizados
Os impactos da transição tornaram-se visíveis logo no primeiro ciclo de potros domados pelo novo método. O tempo necessário para colocar um cavalo pronto para a lida pesada foi reduzido consideravelmente, não por pressa, mas pela ausência de resistências e traumas a serem corrigidos.
Os animais passaram a demonstrar docilidade superior, boca leve e excelente capacidade de resposta funcional nas provas campeiras. O índice de acidentes no trabalho de doma caiu a zero, enquanto a taxa de aproveitamento dos potros subiu de 70% para expressivos 95%. Comercialmente, a cabanha viu a média de seus leilões subir em mais de 35%, com compradores destacando a calma, a funcionalidade e a confiança dos animais em pista.
Conclusão
A experiência da Cabanha Rincão da Coxilha em Bagé comprova que o amor pela tradição gaúcha não precisa estar atrelado a métodos ultrapassados de manejo. A transição para a doma racional não retirou a coragem, a rusticidade ou o brio característico do Cavalo Crioulo; pelo contrário, potencializou a inteligência natural da raça e fortaleceu a parceria histórica entre o homem do campo e sua montaria.
Hoje, o exemplo dessa propriedade serve de inspiração para outros criadores da fronteira e de todo o estado. Ao substituir a força bruta pela técnica e pela paciência, o tradicionalismo campeiro se renova e ganha fôlego, mostrando que o verdadeiro camperismo se faz com respeito mútuo, bem-estar animal e visão de futuro nas coxilhas do Rio Grande.






