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ToggleA poeira vermelha levantada pelo vento norte e o estalar do pasto seco sob as patas dos cavalos desenhavam um cenário desolador em Santana do Livramento, no coração da Fronteira Oeste gaúcha. Conhecida por suas coxilhas a perder de vista e tradição secular na criação do Cavalo Crioulo, a região enfrentou uma das estiagens mais severas das últimas décadas. Com aguadas secas e o campo nativo reduzido a terra batida, criadores e peões viram-se diante de um desafio histórico: como manter vivo e saudável o plantel sem descaracterizar a rusticidade e a rotina campera?
Este estudo de caso revela a trajetória de uma estância tradicional de Livramento que, ao invés de aceitar as perdas ou apelar para soluções insustentáveis, implementou um manejo revolucionário. A união entre a sabedoria ancestral do homem do campo e a gestão técnica rigorosa garantiu a sobrevivência e o vigor de dezenas de animais em meio ao caos climático.
O Contexto e o Problema: Quando a Coxilha Vira Deserto
Na Fronteira Oeste, o Cavalo Crioulo é forjado a campo, enfrentando o rigor do minuano no inverno e o mormaço do verão. No entanto, o prolongamento de meses sem chuvas expressivas esgotou a capacidade de regeneração do bioma Pampa. Em poucas semanas, as tradicionais invernadas perderam sua cobertura vegetal, transformando o pasto abundante em solo calcinado.
O problema atingiu proporções críticas quando:
- As aguadas naturais e açudes baixaram a níveis de lodo, inviabilizando a hidratação segura do plantel;
- Éguas de cria em terço final de gestação e potros em desmame começaram a apresentar rápida perda de escore corporal;
- Os cavalos de serviço, essenciais para a lida diária com o gado, sofriam com o desgaste calórico excessivo e a falta de forragem de qualidade.
A Solução: O Manejo Revolucionário de Convivência com a Seca
Diante do colapso forrageiro, a administração da estância, em conjunto com veterinários e a capatazia, rompeu com o tradicionalismo passivo e adotou um plano emergencial estruturado em três pilares fundamentais.
1. Loteamento Estratégico e Descanso de Áreas Críticas
O primeiro passo foi retirar os animais dos grandes potreiros degradados. O rebanho foi categorizado rigorosamente por demanda energética: éguas prenhes e paridas, potrada em crescimento e cavalos de serviço. Áreas de baixada e capões de mata, que ainda retinham alguma umidade residual, foram transformados em piquetes rotacionados de permanência temporária, evitando o superpastejo e preservando as raízes do pasto nativo remanescente.
2. Suplementação Volumosa Fracionada e Manejo Hídrico
Sem forragem em pé, introduziu-se uma dieta de transição baseada em feno de boa procedência combinado com palhada tratada e blocos proteicos de consumo controlado. Para evitar a cólica por areia e distúrbios digestivos — comuns quando o cavalo pasta rente à terra —, a alimentação passou a ser fornecida em comedouros suspensos e em horários específicos. Paralelamente, foram instalados bebedouros móveis abastecidos por poços artesianos, garantindo água limpa e fresca mesmo nos horários de pico de calor.
3. Adaptação da Rotina Campera e Bem-Estar Térmico
A lida tradicional precisou mudar seu relógio. As atividades de campo pesado foram transferidas exclusivamente para as primeiras horas da manhã (da alvorada até as 9h) e para o final da tarde. Durante o pico do sol, os animais eram recolhidos a áreas com sombra natural abundante, reduzindo drasticamente o estresse térmico e o consumo desnecessário de energia metabólica.
Resultados Obtidos: A Força da Raça e da Estratégia
A resposta dos animais ao novo modelo de manejo foi imediata. Ao longo dos cinco meses mais duros da seca, a estância registrou indicadores surpreendentes para um período de calamidade climática:
- Zero mortalidade: Nenhum animal adulto ou potro foi perdido por desnutrição ou cólicas decorrentes da seca;
- Manutenção de Escore: Mais de 85% das éguas mantiveram condição corporal adequada para o parto e início da lactação;
- Preservação do Solo: Com a rotação e o confinamento estratégico, as áreas de campo nativo regeneraram-se com vigor incomparável logo após as primeiras chuvas de outono.
O caso provou que a rusticidade genética do Cavalo Crioulo, embora lendária, não deve ser desculpa para a inércia do criador. Quando aliada ao planejamento zootécnico e à sensibilidade campera, a raça demonstra uma capacidade de recuperação e resiliência inigualável.
Conclusão
A experiência vivenciada em Santana do Livramento deixa lições profundas para todo o setor equestre do sul do país. Em tempos de instabilidades climáticas cada vez mais frequentes, a tradição gaúcha precisa caminhar de mãos dadas com a gestão preventiva. Esperar pela chuva sem intervir na dinâmica das invernadas é um risco que a pecuária moderna e a criação de cavalos não podem mais assumir.
Ao final, o sucesso deste manejo reafirma o compromisso histórico do homem de campo com o seu cavalo: o mesmo animal que ajuda a moldar a cultura pampeana recebe de volta o cuidado, a inteligência e o respeito necessários para superar qualquer adversidade. O Cavalo Crioulo resistiu ao caos não por acaso, mas porque encontrou no conhecimento técnico e na alma campera o suporte para continuar galopando forte sobre a terra que ele próprio construiu.






